Eu, meu, ‘-me’: Reflexões sobre Narcisismo e Auto–Destruição

I’ld like to take the opportunity, long neglected, to fulfill a promise I made to Cesar Monatti, a Brazilian reader, who went to the trouble of translating into Portuguese one of the many articles on the human condition of narcissism that I have posted to The Chrysalis. His extraordinary effort was motivated by a wish to understand the meaning of the post in his own terms, but I was pleased he sent it to me, and have since acquired his permission to post his translation under condition only that I agree to mention that Cesar is not a professional translator.

The original post in English is I, Me, Mine, Myself: Reflections on Narcissism and Self-Destruction.

I know that at least one other reader of The Chrysalis speaks Portuguese, but the translation might be of use to some others. I had to reformat to accommodate the PDF text Cesar sent in Portuguese, so hopefully it worked out without too many errors on my part. Thanks Cesar!


No momento, estou lendo o livro The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement de Jean M. Twenge’s and W. Keith Campbell e escrevendo copiosas notas durante o processo. Com esta postagem, pretendo começar a compartilhar algumas observações e críticas sobre o entendimento dos autores a respeito do narcisismo – onde estão indo bem, onde estão indo para o lado errado – mesmo que não tenha ainda concluído a leitura do livro.

Divido com eles, entretanto, a preocupação de que a cultura do narcisismo é, no final das contas, social e autodestrutiva, em relação ao que muitos dos estranhos, perturbadores e críticos eventos dos nossos dias prestam testemunhos por demais eloquentes. O livro Twenge e Campbell demonstra (ainda que inadvertidamente) bem, creio, como a “busca racional do interesse próprio”, levada ao extremo (hybris), torna-se um contrassenso e se reverte pelo processo de ‘enantiodromia’ numa loucura que se torna a busca irracional da autodestruição.

Mas, se por um lado aceito o prognóstico dos autores, por outro, divirjo grandemente sobre a definição, diagnóstico, etiologia e tipo de tratamento que endossam, os quais parecem estar baseados numa interpretação incompleta do próprio mito de Narciso e Eco, bem como numa exagerada confiança nas convencionais e “empíricas” definições clínicas do narcisismo que são, por sua vez, muito reducionistas.

Embora os autores restrinjam a maior parte dos seus comentários à cultura dos Estados Unidos, (logicamente é com a qual eles têm familiaridade) a maior parte de suas observações sobre o narcisismo é pertinente à Idade Moderna, de modo mais geral e especialmente como um sintoma de seus últimos estágios. Os autores identificam o surgimento da “epidemia” do narcisismo nos anos 70 com a publicação, em 1976, do ensaio “The ‘Me’ Decade and the Third Great Awakening” e o livro, publicado em 1979, The Culture of Narcissism: American Life in an Age of Diminishing Expectations, de Christopher Lasch.

Por não ter familiaridade com o ensaio de Wolfe, dei uma procurada na rede e o li. Achei-o, às vezes, humorado, outras aborrecido, e não muito esclarecedor a respeito do narcisismo. Apesar disso, o que me impressionou foram as últimas palavras do ensaio. “…Me…Me…Me…” trouxeram-me à mente as palavras do Agente Smith do filme Matrix, como o arqui-narcisista (como se fosse possível um programa pirata do mundo das máquinas ser narcisista. Mas, de fato, com frequência, é uma queixa característica dos narcisistas sofrerem por sentirem-se “mecânicos”. Quem sabe os criadores de Matrix tinham em mente o ensaio de Wolfe? Em qualquer situação, o
narcisismo de Smith foi programado para estar em absoluto contraste com a humildade e o auto-sacrifício de Neo, cuja jornada faz, em alguns aspectos, lembrar a do medieval Parsifal, figura que do tipo tolo que era, chegou a ser um Cavaleiro do Santo Graal.

Minha objeção ao ensaio de Wolfe é seu senso histórico truncado; sua carência de um contexto histórico mais amplo para este alegado abandono repentino de supostas “normas”, que ocorreu durante os 70 e 80, com a ascensão da “Geração do ‘-me’ ” de completos egocêntricos narcisistas. A questão que imediatamente me ocorreu é como esta “Década do ‘-me’” relaciona-se à Era do “Eu”. Foi disso que se tratou basicamente a Idade Moderna: da descoberta do perspectivismo do “ponto-de-vista” na Renascença (junto com a avidez de então por espelhos, biografias e autobiografias), à famosa formulação de René Descartes “Penso, logo existo”, a qual deu a fundamento filosófico para a concepção de que apenas a “busca racional do interesse próprio” poderia fornecer um guia universal confiável para uma vida proveitosa e para uma sociedade justa. Dessa presunção de que o subjetivo “Eu”, atuando puramente por si próprio e por meio do pensamento – como aquele ‘cogito’ ou pensamento objetivo – e que esse pensamento objetivo era a causa ou condição do ‘meu ser’, nasceu o conceito de “self-made-man” o qual traz a si mesmo, puxando-se pelos próprios cabelos (bootstrap), à existência, tal qual a Deusa da Razão Atena, nascida inteiramente adulta e protegida por armadura da cabeça de Zeus. O pensamento desde então passou a ser confundido com senciência (sensibilidade) e consciência (conduzindo, por fim, ao absurdo contemporâneo de que ideologia é consciência).

Uma vez que a “Década do ‘-me’” seja situada dentro deste contexto histórico de 500 anos da Era do “Eu”, poder-se-á observar que não houve um nítido rompimento com o passado nos anos 1970, apenas uma mudança de  ênfase do “Eu” para o “-me”. Aquele que age por si, o “Eu” como sujeito, torna-se objeto, na forma “-me” (ou ‘a mim’). ‘-Me’ é a chamada ‘forma dativa’, e ‘data’ significa “dado”, “dotado”. O “Eu”, previamente o iniciador da ação, agora se torna objeto indireto ou alvo de ações externas, vivendo o “si mesmo” como “-me”. Há algum eco disso na distinção em inglês antigo do termo ‘methinks” (creio que-, acredito que-, segundo me parece) que se torna, sob a pressão do Cartesianismo, no cogito ou “Penso”. Com o ‘-me’, eu não atuo mais. Eu ajo de acordo alguma coisa. ‘Eu’ sou moldado por poderes externos. “-Me” (‘a –me’) é uma construção passiva.

Portanto, a proposição de Wolfe sobre normas pré-existentes privadas de egoísmo para constrastar com a geração “-me” é risível. Desde a Renascença, o ego tornou-se o centro da atenção com seu enfático “ponto de vista”. A “Geração ‘me’” não representa um rompimento, mas um desenvolvimento lógico do tema – “Eu” como sujeito, “me” como caso dativo (objeto indireto),“meu” como caso possessivo enfatizam três formas da natureza egóica relacionando à experiência de realidade como ser, tendo ou possuindo, sendo possuído (ou “being had”, como diz o ditado popular). O sentido de “direito” está fortemente conectado com o caso dativo ou passivo – ‘me’– como o centro da atenção. Mas é apenas uma variante da mentalidade do “ponto de vista”.

Estas formas gramaticais –eu, me, meu, a mim– são apenas muitas mudanças por fases da auto-imagem, que é a identidade construída sóciohistoricamente. Mas a auto-imagem não é o si-mesmo ou o ator que constrói a imagem e então se perde no papel criado. O “criador” da auto-imagem é algo totalmente diferente. Essa confusão do si-mesmo com a auto-imagem (ou “verdadeiro si mesmo” com o “falso si mesmo”, ou criador com criatura) é a  essência do narcisismo. O ego, bem como o cogito, é a auto-imagem. Nem “eu”, ou “me”, nem “meu”, tampouco “a mim” representam a primeira nem a última palavra de nossa existência. Eles podem ser todos formas de narcisismo e apenas as muitas avenidas pelas quais a “busca racional do interesse próprio” chegou-nos através dos últimos 400 anos, aproximadamente.

Onde Twenge e Campbell parecem acertar em cheio é na sua observação de que, em alguns aspectos, o narcisismo exagerado que vemos hoje é uma reação passiva de sobrevivência à cultura que já está predisposta para o narcisismo e auto-idolatria, mesmo antes que os jovens cheguem à cena e seja esperado que “vendam a si mesmos” ou criem sua própria “grife” – a “Grife –me”. A desilusão real, a falsidade e a impostura do narcisista hoje é o  conceito que de que ele ou ela é um verdadeiro “indivíduo”, enquanto que todos eles têm sido moldados em massa pela própria cultura da grande mídia, de modo que todos se comportam e atuam de forma notoriamente semelhante  – isto é, narcisisticamente. Mesmo a sua mera auto-imagem não pode ser reivindicada como própria. Ser é ser percebido, e ser percebido como uma “grife”.

Isso é que o livro de Arthur Herzog, publicado em 1973, “The B.S. Factor: The Theory and Technique of Faking It in America“, descreveu criteriosamente os encadeamentos em relação à “cultura do narcisismo”, apenas mais tarde observada por Wolfe e Lasch. Herzog nunca usou, efetivamente, o termo “narcisismo”, mas ele apontou para o tema muito antes que observado por outros. Sobre o princípio “em Roma, como os romanos”, numa cultura de falsificação, manipulação da percepção e venda-de-imagem, pode ser “interesse próprio racional” falsificá-lo e também atuar como um impostor. Isso pode não ser particularmente nobre, mas o levará adiante (se esse for seu propósito).

E existe certo sentido em saber quais situações em que estar enganando e fazendo uma representação é o oposto do narcisismo. O problema real é com aqueles que não sabem que estão fingindo ou encenando. Esse é o problema.

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12 responses to “Eu, meu, ‘-me’: Reflexões sobre Narcisismo e Auto–Destruição”

  1. tony says :

    And its not an easy text to translate. Um bom trabalho.

    • Scott Preston says :

      An unfortunate side effect of posting the article in Portuguese is that it has attracted a small flood of Portuguese spam. But nothing that the spam filters can’t handle.

      To date, parts of the Chrysalis have been translated into Portuguese and Italian. But it’s sometimes complained that it hasn’t been translated into English.

      • LittleBigMan says :

        “To date, parts of the Chrysalis have been translated into Portuguese and Italian. But it’s sometimes complained that it hasn’t been translated into English.”

        LOL 🙂

        • tony says :

          I must admit initially I had problems deciphering the Longsword posts on Guardian CIF, and I also struggled through some of the Dark Age Blog. But it was a worthwhile challenge and it all seemed to gradually come together. I’m particularly grateful for some of the extraordinary metaphysical posts.

      • Scott Preston says :

        I must admit initially I had problems deciphering the Longsword posts on Guardian CIF…

        That’s a surprise. I didn’t know (I think) that you came to TDAB via CiF. I posted the link to TDAB back then on CiF in one comment as a little experiment to see how many people actually read the comments below the line on that one article. To complete the thought in the comment, the reader would have had to click the link. TDAB got 12 hits from that link. That persuaded me that I was probably in the wrong place.

        And you’re right, from a previous comment, that the world is running insane. What is being touted as a feature is actually a bug, as they say. Present trends bear a lot of similarities to the Late Middle Ages, and that wasn’t a particularly pleasant time to live in. I’ve had to stop reading news sites because it’s totally incoherent, and much of it nothing else but the clash and dissonant cacophony of competing propagandas.

        That says something about the “fragmentation” and atomisation of the times (‘sound bites’, for example) that Gebser identified as the disintegration of the mental-rational structure of consciousness. Nietzsche thought thinking should be like music (like dance, actually, but dance requires music) — sonorous, harmonious, melodic — a play of sound and silence, which is actually only Genesis and Nihil — the Void or abyss. Movement and repose. Nietzsche actually took “ratio” to a higher level of interpretation or “transvaluation” in reconceiving the ‘ratio’ of rationality as more akin to music or dance. It is said that he was found by his landlady dancing naked in his rooms in Turin when he had his breakdown. To what music I wonder?

        But I’m getting carried away again…. But isn’t getting ‘carried away’ rapture?

    • Cesar Monatti says :

      Muito obrigado pelo estímulo Tony!!! Thank you for your kind words.

  2. LittleBigMan says :

    Most people who post on CIF who are not familiar with your comments don’t realize that, as clear as they are, it usually takes several reading of them before the intended meanings are understood. Every sentence is a gem. And even when you show patience in explaining things further, at times that energy seems to be wasted on them. I remember the very first article I read on the Dark Age Blog I had to read 6 times before I began to understand what it was saying 🙂
    And very worth it, too.

    “I’m particularly grateful for some of the extraordinary metaphysical posts.”

    Although I’m not academically trained on the subject, over the years I’ve had experiences that leave me no question whatsoever that reality transcends physical existence. When I was younger, I thought these experiences only happened to me. But as I grew older, I heard in casual conversations that many people have these experiences – but they tend to dismiss them as halluciantions. That’s why I hold the work of Seth and Carlos Castaneda very dear to me. Those works tell me that I haven’t been crazy 🙂

    • Scott Preston says :

      That’s why I hold the work of Seth and Carlos Castaneda very dear to me. Those works tell me that I haven’t been crazy 🙂

      You might like Northrop Frye’s Fearful Symmetry then. I’m presently reading the book and taking in his interpretation of William Blake, and am constantly reminded of passages from Seth or Castaneda and Gebser, too.

      But it does require a good deal of familiarity with Blake’s poetry. What’s interesting about Frye’s approach to Blake is that he focusses mainly on Blake’s notes and marginalia that never made it into print — comments Blake made (often in poetic form) in the margins of books he read. I’m only about 40 pages into the book, but it’s helped deepen my appreciation for Blake’s vision, which can seem obscure at times. I’ve also realised that my Complete Poetry & Prose of William Blake isn’t entirely complete at all.

      • LittleBigMan says :

        I’ll be sure to read Frye’s book. I’ve only read Blake’s “Marriage of Heaven and Hell,” and I’m sure this reference can help shed light on many areas of Blake’s work and thought I didn’t quite get. Thank you.

        • tony says :

          “That’s a surprise. I didn’t know (I think) that you came to TDAB via CiF.”

          I didn’t see the post with the link, I googled longsword along with a couple of other words which I no longer recall, after reading one of your posts which mentioned that you had a blog.

          “That’s why I hold the work of Seth and Carlos Castaneda very dear to me. Those works tell me that I haven’t been crazy”

          LittleBigMan, crazy is an apt description of those who are in denial of the spiritual dimension. It’s bizarre how so many manage to stumble through their entire lives attached to a purely material plane.

      • Scott Preston says :

        It’s bizarre how so many manage to stumble through their entire lives attached to a purely material plane.

        In the final analysis, I believe that is ultimately the significance of what Gebser means by “deficient rationality” (oddly enough, I misspelled that at first as “ratio-anality” before I realised my spelling mistake). It is certainly the complaint of both Gabriel Marcel in Man Against Mass Society and Rene Guenon in The Reign of Quantity, although I think Gebser is right in saying that Guenon’s critique based in “traditionalism” is too one-sided, despite its cogency.

  3. LittleBigMan says :

    Thank you, tony. I agree.

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